“Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio porque as águas nunca são as mesmas e nós nunca somos os mesmos”. O existir é um perpétuo mudar, um estar constantemente sendo e não-sendo, um devir perfeito; um constante fluir...

Se gosta seja amigo :) Namasté!

1 de setembro de 2009

De regresso a Eri

Este post faz parte da blogagem colectiva com o tema 'Dormir aqui e amanhecer em outro lugar', do Blog Vou de Coletivo .


A brisa do mar acordou-a, envolvendo-lhe a alma adormecida e chamando-a de volta ao corpo que a aguardava.
Ao longe, um Sol carmim renascia trazendo consigo o som estridente de aves reluzentes que rasgavam os céus numa saudação á vida.
A luz daquele Sol penetrava avermelhada na neblina eterea que a rodeava, lançando chamas de novas cores sobre o mundo em que se encontrava.
Abriu os olhos lentamente, experimentando a sensação de ver pela primeira vez. Aos poucos as memorias foram poisando e encontrando o seu lugar, como peças de um puzzle que se encaixam naturalmente.
Deixou-se ficar ainda por momentos deitada sobre a Terra molhada da noite, sentindo o seu ritmo entranhar-se e energizar as suas células, forçando-as a entrar na corrente da vibração universal.
Olhou o seu corpo pela primeira vez e maravilhou-se com a cor azul eléctrica que a pele acetinada irradiava. As pequenas escamas brilhantes que a revestiam eram quentes aos toque. Os cabelos compridos eram de um branco puro e luminoso, e caiam soltos pelas costas em ondas revoltas de perfeição.
Estava nua. As suas longas pernas acabavam em patas largas de 4 dedos cobertos de tufos de penas também brancas, e maravilhada descobriu que tinha garras poderosas e afiadas.
Tentou levantar-se, mas em vez disso elevou-se e pairou sob o rasto gravado na terra fecunda pelo seu corpo. Foi só então que se apercebeu das asas que lhe rompiam as costas e que batiam agora suavemente. Por momentos atrapalhou-se sem saber como controlar os seus movimentos, mas rapidamente se apercebeu que seria o mesmo que movimentar um dos outros 4 membros.
Sorriu.
Tudo lhe pareceu natural.
Até as 4 Luas de cores e tamanhos diferentes que se mostravam esplendorosas no céu, como se irradiassem a sua própria luz e assim não pudessem ser apagadas pela luz estranha daquele Sol cujo carmim era agora ainda mais vivo.
Tentou vocalizar e assustou-se imediatamente com o chilreado que emitiu, num tom baixo mas muito nítido, com vibrações distintas e uma entoação sonante. Apercebeu-se instintivamente da complexidade daqueles sons, e que deveria ter cuidado na sua utilização pois correspondiam exactamente ao que pensava no momento. A palavra mentira aflorou-lhe a mente, mas não sabia de onde vinha nem o que significava e por isso esqueceu-a instantaneamente.
Sentia apenas uma enorme alegria por estar de volta e ansiava agora encontrar...encontrar quem? Não se lembrava. Mas sabia que tinha de ir... onde?
Abanou a cabeça perplexa com tudo aquilo.
Que mundo era aquele em que acordara?
Porque nada lhe parecia estranho?
E porque é que não conseguia recordar-se de praticamente nada que antecedesse aquele despertar?
Mirou-se naquele mar de águas negras, como se a sua imagem lhe pudesse devolver algo que perdera... e ao olhar-se nos olhos sem cor do seu reflexo, assustou-se e caiu...
Aterrou na cama, erguendo-se de imediato e acendeu a luz...tocou-se a medo e descobriu-se humana...as lágrimas incendiaram-lhe os olhos inundados de uma súbita saudade...sonhara...

23 comentários:

Nanda Botelho disse...

Bonito conto, estamos todos esperando o dia do regresso,não é?

Bjs!

António Rosa disse...

Siala

Fiquei fascinada com o teu talento como contista. Bem escrito e descrito, sugestivo, agarra o leitor.

LIndo, além de simbólico.

Beijo

João Soares disse...

Uau. Muito obg. Já actualizei a hiperligação na minha postagem.
Muita Luz e Paz para ti.

Siala ap Maeve disse...

Nanda, obrigada pela visita :) As saudades de casa sempre foram enormes, felizmente consegui integrar e transmutar a parte da dor - afinal, há trabalho a fazer aqui, e eu aceitei faze-lo, não é?
Um beijo de luz

Siala ap Maeve disse...

António, obrigada :) um elogio destes vindo de ti, sendo tu quem és, é acima de tudo uma motivação para continuar a escrever e para procurar melhorar sempre mais!
Beijos de Luz

Siala ap Maeve disse...

João, bemvindo :) achei piada ver Eridanus no teu Blog, que eu visito diariamente. Como podes verificar, sou uma apaixonada por essa constelação ;)
Beijos de luz

Shin Tau disse...

Siala

que maravilhosa história! Como o António, achei a escrita muito boa, bem descrita e cheia de emoções fortes, foi fácil identificar-me com essas emoções.

PArabéns :****

Mari Amorim disse...

Adorei!
Cada vez que passeio neste coletivo,fico feliz na leitura das variadas formas de arte,e abraçar os amigos da blogosfera..
Boas energias
Mari

Nade disse...

Adorei o conto! Muito legal mesmo!
Este mês, o tema proposto foi demais, não é!
Excelente a sua participação!
Bjs

Serena Flor disse...

Que conto mais lindo...adorei!
Bela participação a sua.
Também peguei este coletivo...bjs.

Sandra disse...

Ficou bela.
Vejo que cada um teve a sua maneira de se expressar nesta coletividade.
Eu também estou...
http://sandrarandrade7.blogspot.com/
Sandra

EU ESCOLHO A LUZ !!!!!!!! disse...

Maravilhosamente Emocionante.
Beleza Pura, Parabéns!!!!

Siala ap Maeve disse...

Shin, obrigada!Eu adoro escrever contos mágicos :)
bjos de Luz

Siala ap Maeve disse...

Mari, Nade, Serena e Sandra :) esta foi a primeira vez que participei e adorei! Tenho que vos ir ler também!
Beijos de Luz

Siala ap Maeve disse...

Eu Escolho a Luz :) Obrigada. O teu Blog é visita diária obrigatória! Obrigada eu pelas partilhas com que nos iluminas!
Bjo de luz

Bia disse...

Lindo conto, viajei ao lê-lo... abre as portas da imaginação.

Também participo!

Abraços!

Chica disse...

Que lindo teu conto e participação!um beijo,chica

Clara disse...

belo conto, admiro muito quem sabe dançar com as palavras...bela participação no coletivo.
beijos

Mah disse...

É bom quando se tem escolhas e vir aqui é uma delas... E uma ótima opção.
Bjsss

angela disse...

Muito bonito seu sonho, fui acompanhando os descobrimentos da ave, como se fosse eu mesma e solucionou muito bem o final.
Eu também sonhei na minha postage, mas não com esse talento.
beijos

Andreia disse...

Olá Siala! Que conto maravilhosos, adorei!
Parabéns pela tua participação cheia de sensibilidade.
Beijos carinhosos...

Siala ap Maeve disse...

Serena, Sandra, bia, Chica, Clara, Mah, Angela e Andreia, de coração muito obrigada pelas lindas palavras!
Beijos de luz

Luis Bento disse...

A arte de contar.... Soberbo!