“Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio porque as águas nunca são as mesmas e nós nunca somos os mesmos”. O existir é um perpétuo mudar, um estar constantemente sendo e não-sendo, um devir perfeito; um constante fluir...

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23 de outubro de 2008

Psicologia e Relacionamentos II



(continuação)
Claro que cada um gosta de representar determinado papel conforme as suas experiências de vida.
Há o "mártir", que se auto anula constantemente, escondendo a sua fragilidade numa pseudo dedicação ao outro, quando na realidade seus esforços apenas se dirigem não para a solidificação do real amor no relacionamento, mas tão somente para coisas secundárias, como cuidados materiais ou tarefas domésticas como exemplos gerais deste tipo. O impacto do mártir nos relacionamentos é a desenergização de ambos os parceiros, pois não ocorre nenhuma troca significativa da afectividade, apenas o cumprimento de papeis rígidos. O segundo tipo é quase que uma extensão do primeiro, o "apaixonado", sendo que reclama constantemente que não há reciprocidade do seu esforço sentimental por parte do outro. Sente-se submisso na relação, e ambos os tipos acabam por quase sempre por ser trocados por outra pessoa. Obviamente não estou querendo dizer que as coisas inexoravelmente acabam dessa forma, sendo que há felizmente pessoas apaixonadas que são correspondidas. Cabe aqui a análise da problemática dos relacionamentos. Feita esta ressalva gostaria de voltar à discussão dos tipos psíquicos nos relacionamentos.

O ciumento é uma representação extremamente dolorosa da vivência afectiva, sendo que o mesmo é refém quase que absoluto de sua insegurança. É importante ressaltar que os ciúmes são sempre uma via dupla (insegurança e delírios imaginários da pessoa presa neste sentimento, e desejo de poder e vaidade latente do parceiro). É muito comum as pessoas inocentarem quem sofre com as cobranças do ciumento, esquecendo-se que uma relação tem o caráter de potencialização dos sentimentos, assim sendo, determinada pessoa presa no ciúme recebe constantemente um reforço inconsciente do seu parceiro para que permaneça em sua prisão pessoal, pois todos acabam por se regozijar na exibição de seu poder pessoal.

O tipo "tímido" é o mais destrutivo de todos os citados. A timidez não é o que comumente as pessoas chamam de acanhamento, envergonhado, pouco comunicativo ou medo do contacto social. A raiz da timidez é um jogo perverso onde a pessoa não almeja nenhuma divisão de seu afecto para com o outro, desejando apenas extrair suas necessidades pessoais, que nada mais são do que um profundo ódio interno arcaico, por achar que ocupou uma posição secundária na família. O tímido lida com seus sentimentos perante o social como se fosse uma espécie de "caixa preta", não revelando nunca a sua intimidade. No ser masculino o tímido revela-se como disse acima no ódio em relação às suas origens familiares e posição que ocupava na mesma; na mulher a timidez é notada na extrema dependência das figuras parentais, principalmente a materna.

Não raro, escuto diversas queixas de homens casados que não conseguem constituir uma verdadeira família com suas esposas, pois as mesmas abandonam todas as suas metas conjugais a fim de suprirem e continuarem dependentes dos pais. É a eternização do clássico conflito da "sogra", só que numa versão ainda mais virulenta, pois esta mulher não se sente como tal, mas como uma "menina" assustada, que não consegue amar, e irá destruir àquele que lhe cobrar tal tarefa. Sua única família sempre será a primeira, não aceitando sair do papel de "filha". Outro padrão comum é a transmutação do papel dos pais para o papel do marido - a mulher que não aceita a sua evolução de filha para esposa, muito comum nos casos em que não houve lugar ao crescimento como mulher, uma fase essencial do desenvolvimento de qualquer ser humano, passa então a ser “filha” do marido, ao qual cobra a responsabilidade de tudo o que acontece na sua vida.
Ressalve-se que este quadro também acontece no masculino, embora menos frequentemente visto que feminino e masculino têm a maioria das vezes respostas e quadros clinicos diferentes perante a mesma situação. E diferentes não significa aqui menos graves.
Por último há o tipo "salvador", que espelha todas as necessidades não expressas do parceiro, desenvolvendo-se uma espécie de relação terapêutica entre ambos. No começo tal relação é extremamente benéfica para o parceiro carenciado, mas não demora muito o desenvolvimento do sentimento de ódio e inveja perante o potencial do outro, pois é notório o complexo de inferioridade perante a pessoa que detêm o poder e competência na questão afectiva. O mártir começa a queixar-se que as suas necessidades nunca são atendidas, não percebendo que a sua atitude também é uma fuga da entrega e do amor, ocultando a sua problemática através da constante exaltação da problemática do outro.
Não existe um relacionamento que não seja o espelho dos mecanismos sociais e económicos, e o verdadeiro amor é uma espécie de atalho que se cria quando reflectimos sobre todas essas influências citadas. A psicologia social ensina-nos que todas as experiências sociais são vividas também no plano emocional, assim sendo, não há uma só pessoa que nunca tenha sentido em alguma altura da sua vida a sensação caótica de miserabilidade e exclusão no plano pessoal.

O leitor indagará o porquê da dificuldade de mudar o quadro acima descrito. O medo da mudança tem uma profunda raiz na religiosidade, pois a pessoa desenvolveu a crença de que apesar de todo o sofrimento, a sua relação ainda sobrevive, mesmo quando já está evidentemente morta. O novo é sempre visto como uma perda quase irreparável. Historicamente, qualquer novo comportamento humano nunca teve o apoio dos "deuses", ao passo que a auto comiseração possui a bagagem de milênios de religiosidade impregnada. É absolutamente ingenua a pessoa que não percebe que num relacionamento há dois tipos de juramento: o primeiro baseia-se no desejo primeiro sexual e depois também espiritual, atracção fisica (a primeira possível entre seres humanos, que são para além de tudo, animais mamiferos) e mental (que pode decorrer ou não da primeira) e prazer de estar com a pessoa, clamando por prolongar o máximo possível tal encontro, seja através de um namoro ou casamento; o segundo juramento que poucos percebem é a necessidade de vivenciar determinado potencial destrutivo com o outro, abrindo caminho para todo o tipo de emoções negativas ou destrutivas: inveja, depressão, culpa, ódio, arrependimento e ciúmes. Este último é como qualquer vício que no começo desperta um prazer, porém, com o decorrer do tempo acaba por aniquilar por completo a energia da pessoa. Em suma, todo o potencial afectivo apenas acaba sendo vivenciado pela dor. Não perceber os juramentos das duas partes da personalidade(consciente e inconsciente) é simplesmente condenar a relação ao término absoluto. Enfim, é fundamental observar se dentro de um relacionamento desejamos a vivência da troca do prazer, ou apenas usar o mesmo como palco de todos os dramas passados não resolvidos.

Diante das considerações citadas, não é difícil imaginar o medo de qualquer envolvimento. Porém, uma das maiores tolices perpetradas pela maioria das pessoas é a fuga da dor ausentando-se de uma relação. A escolha passa então por dois pólos distintos, mas complementares em termos de infelicidade; por um lado medo nos seguintes níveis emocionais: frustração perante o parceiro, temor de ser traído, tédio, incompatibilidade de caráter ou de ações em conjunto, perda gradativa da libido e arrependimento. Caso a escolha se dê na tarefa simplista da solidão para se evitar qualquer dor afectiva teremos: angústia, sensação de vazio interior, manifestações de doenças psicossomáticas,e ansiedade mórbida, que pode ser definida como a certeza interna da incapacidade de se resolver determinado problema.

A ansiedade também é a concentração em determinado objetivo da vida, mas com a sensação crescente de que algo maior foi abandonado; um dever absoluto adiado, gerando eterno conflicto. O dever citado faz parte do material psíquico do passado da pessoa, que tomou quase que por completo a vontade da mesma, inserindo toda a nova experiência no contexto da dor pretérita. A ansiedade é a eterna e impagável dívida com o mais profundo sofrimento; o "tutor" omnipresente que restringe eternamente a satisfação e quietude da mente.
Claro que há a ansiedade construtiva, que nos leva a uma maior dedicação e esforço na consecução de determinado objetivo. Todo o potencial emocional de um ser humano só é direcionado para algo saudável quando há a troca, quando se recebe compensação, caso contrário toda essa energia só alimentará a autocomiseração e ódio interno por si ou externo pelos outros.

Se observarmos os transtornos alimentares e preocupações estéticas de nossa sociedade teremos a chave para o dilema colocado anteriormente. Como todos estando "famintos" podem recusar a troca emocional? Vivemos em constante anorexia e bulimia emocionais, e todo culto estético é a prova de que a sedução já não tem mais nenhum sentido íntimo, fora à competição, vaidade ou medo de ser excluído como pessoa. A beleza é a ilusão mais espetacular contra o desafio diário e na maioria das vezes tedioso de um relacionamento. É a droga natural que a sociedade moderna cultua para fugir a qualquer preço do temível complexo de inferioridade. Os efeitos colaterais sempre serão: medo, ciúmes, sensação de jamais ter sido amado, mas apenas o esforço incessante na esfera da sedução. Todos no passado tinham o referencial do casamento como fonte do amor, independentemente dos dramas causados pelo mesmo; talvez a primazia hoje em dia seja a beleza, segurança económica ou emocional.

O ponto que gostaria de enfatizar é que a sobrevivênvia de uma relação só ocorre se a tratarmos como algo a ser explorado diariamente, refletindo constantemente sobre as imagens do passado fixas na memória de ambos os parceiros, que obscurecem novas condutas para a relação. A atração é apenas o começo da exploração de tão delicada tarefa, que é o encontro de dois seres. Para aqueles que genuinamente buscam a transformação, não tardará a descobrirem que a raiz do amor é a permissão para que o parceiro altere significativamente nosso destino, aceitando que ambos possuem a vontade e potencial para tal tarefa.

O desafio é conseguir que a pessoa reflicta honesta e seriamente sobre a sua temática emocional de vida, indo além da superficie e buscando as causas escondidas e profundamente enraízadas, para a sua atitude e quadro clinico...a unica forma de os alterar e sanar.

2 comentários:

Shelyak disse...

Deliciei-me II

Anônimo disse...

Muito bom! Esse texto me abriu para a compreensão de uma série de questãos que estão em voga em mim mesmo desde que me dou por gente.