“Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio porque as águas nunca são as mesmas e nós nunca somos os mesmos”. O existir é um perpétuo mudar, um estar constantemente sendo e não-sendo, um devir perfeito; um constante fluir...

Se gosta seja amigo :) Namasté!

30 de abril de 2008

BELTANE - O Casamento Sagrado



Beltane, ocorre no pico da Primavera. Marca o momento em que a Terra se aquece pelo calor do Sol e o Inverno é oficialmente deixado para trás. É celebrado no hemisfério norte por volta de 1 de maio, e no hemisfério sul por volta de 31 de outubro. Na véspera de Beltane, as energias sexuais naturais atingem seu ponto mais alto. Marca a parte brilhante do ano e um tempo de equilíbrio natural. Na roda do ano fica do lado oposto de Samhain. É um festival de luz que simboliza a união entre as energias masculinas (o Senhor das Florestas) e femininas da terra (a Rainha da Primavera). Como Samhain representa o anoitecer do ano, Beltane representa o amanhecer. O Sol está se aproximando do seu auge que ocorrerá em Litha, e o calor ajuda a fertilizar as plantas e sementes, e os animais brincam e se acasalam. A Deusa e o Deus estão agora em plena vitalidade e amam-se com toda a intensidade. Eles irão consumar seu amor, sua paixão é evidente em toda a vida presente na Terra. Esse Sabá marca a união da Deusa e do Deus representando a fertilidade dos animais e as colheitas do próximo ano, é a união de todos os poderes que trazem vida a todas as coisas. Comemoramos a fertilidade, o amor que dá forças à tudo e o retorno do Sol em toda a sua intensidade. A palavra Beltane vem do nome céltico do Deus “Bel” que é o Senhor da vida, da morte e do mundo dos espíritos. “Tinne” significa fogo. Assim Beltane quer dizer “Fogo de Bel”. Portanto, também podemos dizer que, nessa visão Beltane é derivado do antigo Festival Druida do Fogo. No dia de Beltane o Sol está astrologicamente no signo de Tauros, o Touro, que marca a "morte" do Inverno, o "nascimento" da Primavera e o começo da estação do plantio. Beltane é o momento de celebrar a vida em todas as formas, de dar boas vindas ao Verão, é o momento de equilíbrio, nos despedimos das chuvas para receber o calor do Sol. Algumas práticas de Beltane Na Bretanha, a união do masculino com o feminino ainda é reconhecida nas comemorações tradicionais de Primeiro de Maio (ou festa da Primavera), com a coroação da rainha da Primavera e as danças ao redor do mastro. Beltane é particularmente notado como a época de ver e comunicar-se com o mundo encantado de fadas e duendes. É comum aventurar-se por um antigo bosque, floresta, campo nessa época do ano, e provavelmente serão encontrados círculos de cogumelos crescendo embaixo de copas de árvores (conhecidos como “anéis das fadas”) que dizem marcar o lugar onde as fadas dançam em suas comemorações noturnas. Os celtas acreditavam que a terra das fadas e a terra dos sonhos eram a mesma coisa e que esse era um outro reino que existia no mesmo espaço físico que nós, só que com uma vibração mais elevada. Pode melhor ser percebido quando a mente está em estado de sonho, semelhante àquele em que estamos quando prestes a adormecer. A luz das fogueiras de Beltane no topo dos montes e em lugares sagrados era um ritual importante em todas as terras célticas. Essas fogueiras eram chamadas de “fogueiras da necessidade”, eram construídas de uma forma sagrada e davam-lhe oferendas como, por exemplo, ervas, artefatos animais ou totens para imbuir o fogo de poderes que seriam então passados para o gado. Era tradição as pessoas pularem as fogueiras para encher-se das energias poderosas, curar doenças, assegurar bons partos e pedir bênçãos dos Deuses da Fecundidade. Na Bretanha, nove homens levam nove tipos diferentes de madeira para acender a fogueira de Beltane. Nove é um número de grande potência para os celtas e é mencionado com freqüência na mitologia céltica. Originalmente as fogueiras eram acesas ao redor de uma única árvore sagrada ou mastro decorado com vegetação e flores para representar a união das energias do Senhor das Florestas e da Rainha da Primavera. Esse foi o precursor do Mastro de Maio. No final da festa cada família levava brasas desse fogo para sua casa, simbolizando a renovação da vida e reacendiam o fogo doméstico para compartilhar o divino e receber a benção de esperança para um Verão próspero e fértil, com uma colheita abundante. Era costume colher orvalho na manhã de Primeiro de Maio, e cantar uma estrofe inglesa que diz: “A donzela que em Primeiro de Maio For para os campos ao amanhecer E banhar-se no orvalho de um pilriteiro Beleza eterna era ter”. Fazer uma coroa de maio com pilriteiro para a Rainha da Primavera e dar como oferenda para as fogueiras de Beltane, ou usá-las como decoração nas mesas das casas durante o banquete colocando pensamentos positivos era uma prática celta. Um dos símbolos mais conhecidos é o Mastro de Beltane (Maypole, Mastro de Maio) feito de tronco de uma árvore forte e alta, normalmente o vidoeiro ou freixo e enfeitado com flores e tiras de fitas. Uma vez decorado, antigamente era elevado em uma praça da aldeia (um ponto focal das atividades da comunidade) para que todos dançassem em volta entrelaçando as fitas no mastro. Essa prática é mais do que uma simples dança de festa, o mastro simboliza o falo do Deus e ele sempre é ornado com uma coroa de flores simbolizando a vulva da Deusa. Ao entrelaçarem as fitas os participantes representam a união sexual do divino, a união da Deusa e do Deus. Na Europa Antiga, as pessoas celebravam Beltane unindo-se sexualmente em meio os bosques, e todas as crianças concebidas dessas uniões eram consideradas “bem aventuradas” e filhos da Deusa e do Deus. Essas uniões em meio às arvores era um ato de Magia simpática, de forma que se acreditava na união com os reinos animal, vegetal e humano. Entre os povos da Europa, o gado, que tinha ficado preso durante todo o Inverno, era solto nos pastos em Beltane, a festa que confirmava a promessa da Primavera e o aumento da luz do Sol. Os antigos Druidas faziam bolos redondos (Bolos de Beltane), que durante a celebração eram divididos em partes iguais e consumidos durante o sabá. Nas Terras altas da Escócia, os bolos de Beltane são usados para adivinhação, sendo atirados pedaços nas fogueiras como oferenda aos espíritos e deidades protetoras.
Atividades comuns em Beltane:
· Pular fogueira (ou caldeirão);
· Guardar cinzas da fogueira para utilizar em encantamentos de fertilidade, para abençoar objetos e pessoas;
· Fazer Mastro de Beltane;
· Dançar em volta do Mastro de Beltane;
· Colher ervas da estação;
· Fazer um piquenique em família;
· Lavar a face no orvalho da manhã de Beltane (isso traz beleza para quem o faz);
· Fazer máscaras com folhas para representar o Green Man;
· Colocar uma tira de tecido em uma árvore fazendo um pedido as Fadas;
· Fazer uma oferenda ao povo das Fadas;
· Faze um pacote de Beltane;
· Confeccionar guirlandas com flores multicoloridas para as mulheres e folhas verdes para os homens;
· Fazer oferendas ao espírito da Primavera;
· Fazer bolos redondos de aveia e cevada (Bolos de Beltane)
. Correspondências Cores: verde
Nomes: Beltane, Cetsamhain, Rudemas, Dia da Cruz, Walpurgisnacht, Véspera de Maio, Giamonios Deuses: Deuses da Florestas, fertilidade, sexualidade. A Deusa no aspecto Fertilizadora, O Deus como Fecundador.
Ervas: cardo-santo, curry, narciso, coriandro, sangue-de-dragão, samambaia, urtiga, sementes de linho, espinheiro, manjerona, páprica, rabanete, cogumelo, amêndoa, rosas, folhas de sabugueiro, baunilha, ylang ylang.
Incensos: olíbano, lilás e rosa. Pedras: malaquita, quartzo rosa, esmeralda, berilo, turmalina, quartzo verde, amazonita, aventurina.
Comidas e bebidas sagradas: leite, bolos de cereais, saladas, tortas, bolos de frutas, frutas, cerejas, morangos, ponche de vinhos rosado e tinto e sucos.

Fontes: Explorando o Druidismo Celta – Sirona Knight Grimoire: Ayesha Grimoire: IDC Guia essencial da bruxa solitária – Scott Cunningham Italian Witchcraft – Raven Grimassi Rituais Celtas – Andy Bagggot Textos de Jan Duarte Wicca – A Feitiçaria Moderna – Gerina Dunwich Wicca – A Religião da Deusa – Claudiney Prieto
Texto adaptado

29 de abril de 2008

QUASE

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.

Sobra cobardia e falta coragem até para ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.


Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que a fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance.

Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Para os erros há perdão; para os fracassos, chance; para os amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

(Autoria atribuída a Luís Fernando Veríssimo, mas que ele mesmo diz ser de Sarah Westphal Batista da Silva, em sua coluna do dia 31 de março de 2005 do jornal O Globo)


Recebi hoje esta mensagem no meu email. Foi enviada por uma pessoa que eu ainda não conheço mas que sei que me lê (Namaste!) e chegou-me através do meu Maninho. Não pude deixar de sorrir pois tinha sonhado que estava a falar com o querido Amaral (que eu também não conheço pessoalmente)e embora não me recorde das palavras trocadas ficou a sensação.
Não é facil manter-mo-nos á superficie quando a vida mais parece um mar em remoinho que nos puxa para o fundo. E é um pouco assim que me tenho sentido. Tenho recusado a dor - do cansaço, da revolta, de não ter a minha fada comigo, de não conseguir dar mais de mim, de sentir que não estou a corresponder e que há sempre tanto para fazer e eu não consigo fazer tudo - e assim tenho evitado a alegria - de estar viva, de ter forças para lutar, de ver a beleza que me rodeia, de me aperceber do quanto realizei em tão pouco tempo, de me maravilhar com a presença das pessoas que amo e dos seres que me acompanham, de ser Amor.
Tenho vivido no QUASE.
Aplicando todas as minhas energias para não perder o equilibrio precário entre ondas e mais ondas.
Leveza.
A leveza é a única forma de ultrapassar estes remoinhos da vida. A maioria dos afogamentos acontece porque a pessoa aplica a sua energia lutando contra o inevitável - a força do Mar é maior que a nossa - em vez de a poupar de forma a conceder a si mesma o tempo necessário para aproveitar a altura em que a força do Mar esmorece, e fazendo corpo leve, conseguir flutuar até á saída...e então voltar a respirar.
"Escuta o teu coração. Tudo o resto é auto-critica. Respeita as tuas limitações e saúda-te todos os dias, porque tu és indispensável á vida. O teu drama existencial é quereres conciliar aquilo que tu sentes que és com aquilo que tu pensas que tens de ser."

E eu sei que falhei.


PS:Muda de ideias quantas vezes quiseres. Lembra-te, contudo, que cada mudança de ideias vem acompanhada por uma mudança de direcção do Universo inteiro. Quando "constróis uma ideia" sobre qualquer coisa, pões o Universo em movimento. Há forças para além da tua capacidade de compreensão - muito mais complexas e subtis do que possas imaginar - que estão envolvidas num processo cuja dinâmica intricada estás apenas a começar a perceber. Essas forças e esse processo fazem todos parte da extraordinária teia de energias interactivas que abrangem a totalidade da existência a que chamas a própria vida. São, na sua essência, DEUS.

4 de abril de 2008

SHIVA

Ao ler este texto tive que sorrir. Na altura de escolher o nome para a minha cadela, há 5 anos atrás, vi o significado resumido e gostei...e passados todos estes anos deparo-me com este texto, muito mais abrangente. E tudo faz sentido.

Bom fim-de-semana!



Há muitíssimo tempo, havia três grandes deuses, filhos do Grande Deus Desconhecido, assim chamado porque - segundo narram os sábios - nenhum homem podia Dele se aproximar, a menos que tivesse o coração puro e limpo e merecesse, por suas virtudes, a graça de Sua visão.

Estas três divindades eram, como seu próprio Pai, imaculadas. Brahma, o primogênito, teve por tarefa a criação de todo o universo; o segundo, Vishnu, dedicou-se á conservação e cuidado da obra de seu irmão; enquanto que o mais difícil de todos os trabalhos, coube a Shiva.

- Eu modelo os mundos disse Brahma - para que todas as almas manifestadas tenham a oportunidade de cumprir seu ciclo e retornar à Consciência de nosso Pai Celeste. E por esta razão que crio estrelas e gotas de orvalho, e algum dia, todos seremos novamente UNO. Tempo e Espaço poderão então descansar, pois ninguém necessitará deles.

- Eu cuido da tua obra - falou Vishnu -, e velarei por ela dia após dia, minuto após minuto, para que se mantenha tal qual tu a criaste. Não terei sossego enquanto existir uma só criatura que deva transitar pela "casa das formas" em busca da essência de nosso Divino Pai.

- E tu Shiva? - interrogaram ao terceiro.

- Meu papel é muito difícil, queridos irmãos. Os homens que me contemplam, mas que permanecem aferrados á matéria, verão em mim seu destruidor, porque certamente serei eu quem levará suas almas de regresso ao reino de nosso Senhor. Os sábios, em troca, amar-me-ão buscando-me; e eu, prazeiroso, procurá-los-ei para orientá-los no caminho de retorno àquele mundo do qual jamais voltarão; mundo esse que só podem habitar os homens que alcançaram o supremo estado de perfeição espiritual.

- Sim - disse Vishnu - teu trabalho é árduo, e poucos poderão entendê-lo. Deverás ensinar aos homens que todo este universo criado por Brahma, e custodiado por mim, é pálido reflexo do outro, o real, que mora no coração de nosso Pai. Deverás fazer com que entendam que, ficar apegado a estas formas plasmadas por nós, é pueril. O sábio vê o intimo das coisas, e se une á Essência Suprema da qual tudo isto provém.

Assim foi sempre, e o é ainda agora. Enquanto Brahma cria o cosmos, Vishnu o protege, e Shiva ensina ao coração de todas as coisas, o meio pelo qual atingir a divina meta. Shiva, deus da Misericórdia e do Amor, com infinita ternura, alerta os homens para não se extraviarem na busca daquela Essência Suprema.

- Se souberdes abandonar todos os bens terrenos - diz a seus discípulos -, podereis achar o caminho da Imortalidade, nunca antes. Deveis matar todo apego físico e mental às coisas transitórias, a fim de que vos ilumine a glória dos bens eternos.

E como bom mestre de almas, ele próprio pratica uma austeridade tão rígida, que se tornou conhecido como o maior dos ascetas religiosos. Nada possui na casa-criação de seu irmão Brahma; nela, nada lhe pertence, a não ser as almas que ele, ansiosamente, busca elevar para uni-las a seu Divino Pai. Ainda que príncipe, veste uma humilde túnica de anacoreta, anda descalço, não participa de festa alguma neste mundo, e tudo quanto faz é concentrar sua mente e seu coração naquela amadissima Essência. Na mais alta montanha da índia, lá nos Himalaias, costuma-se vê-lo junto aos monges penitentes que vivem nas neves orando ao Deus Supremo. Eles também adoram Shiva, que reconhecem como seu mestre; e dizem que ele mora no monte Kailasa, perto do lago Mansarovara. Nesse louvado cume onde só chega o vento gelado, ele fica submerso em profunda meditação, tentando colocar toda sua vontade e seu amor na tarefa de despertar almas.

O Kailasa é um monte estranho: quando Shiva está meditando, afirmam que o próprio céu estremece de regozijo, agita-se a neve de suas encostas e as altas montanhas inclinam-se reverentes para, ansiosamente perguntar-lhe:

- Ó misericordioso Shiva! Quando estaremos libertas de nossos corpos de matéria, a fim de nos unirmos outra vez Àquele, nosso Senhor?

Os sábios contam que numa ocasião, quando Shiva estava absorto em profundas meditações, pareceu-lhe por um instante que todos haviam abandonado suas formas materiais; não existiam já nem pássaros, nem estrelas, nem homens, pois tinham-se convertido nesse Grande Desconhecido. Ao ver a criação reintegrada a seu primeiro lar, sentiu-se tão feliz que, no meio do vazio infinito, começou a dançar. Essa maravilhosa dança de Shiva é evocada ainda hoje, em toda a Índia; assim, uma vez por ano os monges a representam, querendo significar com isto que chegará o dia em que o universo inteiro tornar-se-á uma Única Realidade.

Shiva nada pede a seus devotos; uma vareta de incenso, uma flor ou uma simples oração é suficiente para louvá-lo. Todavia, para ele também são louvores as lágrimas de todos os que sofrem as misérias da vida terrestre.

Existe uma árvore que particularmente aprecia, e sob sua generosa sombra costuma abstrair-se em longas meditações. Na Índia chamam-na bael, e os devotos do Misericordioso depositam aos pés de suas estátuas, flores, folhas e pequenas lascas dessa madeira.

Diz a tradição que um dia, quando Shiva orava ao Deus Supremo, foi atacado por uma quadrilha de ladrões que, o desconhecendo e acreditando que fosse um rei, não por suas roupas, mas por seu porte, golpearam-no com bastões de bael para roubar-lhe o dinheiro que, imaginavam, possuía. Shiva não interpretou este ato como uma agressão; ao contrário, pensou que se tratava de devotos que lhe ofertavam pedaços daquela madeira, de um modo muito particular; entretanto, o único que pareciam conhecer. Nem por um instante cogitou em castigá-los, e sim agradeceu-lhes a dádiva de seu amado lenho. Os ladrões fugiram espavoridos, pois não compreendiam como alguém podia sorrir e agradecer cada golpe que recebia.

Numa outra oportunidade, descendo de seu monte Kailasa, pôs-se a contemplar todas as criaturas. Assim, viu nas selvas dos Himalaias um poderoso leão, respeitado por sua ferocidade e admirado por seu porte, que perambulava pelos intrincados caminhos; observou o tigre, as gazelas, o cordeiro, os pássaros, descobrindo com profunda alegria os cuidados e esmeros que havia tido seu irmão Brahma quando lhes deu suas formas adequadas. Por uma ou outra razão, todos eles eram queridos, procurados e elogiados. Mas, ai! quanto sofreu ao ver as serpentes, fugindo sempre das águias, dos homens de todo mundo!

- Ó Senhor da Piedade! - queixou-se tristemente Takshaka, o rei das serpentes. - Ninguém nos quer; absolutamente ninguém! Homens e animais procuram sempre nos matar! Não há em todo o reino deste mundo, criatura mais desditosa que o réptil...

E o senhor Shiva, com infinito amor, alçou várias delas e lhes disse:

- Como ninguém vos ama, dar-vos-ei meu coração e proteger-vos-ei com todo zelo. E assim o fez. Para que ninguém as atacasse, acolheu-as junto de si. Timidamente, algumas se enroscaram em seus braços, outras em seu pescoço e cabeça. Desde aqueles remotos tempos, pintores e escultores vêm fazendo quadros e estátuas do deus Shiva e suas serpentes... Muitos procuram um estranho simbolismo neste fato, cujo verdadeiro significado é o infinito amor que Shiva prodigaliza aos desamparados. Entre estes, também está o homem. O Senhor da Misericórdia, dá abrigo àqueles que o mundo rejeita, pois sabe que o Deus Desconhecido depositou sua essência em todas as criaturas, ainda que estas sejam - na aparência - decrépitas ou mentalmente aleijadas. Eis porque ele também ama os maus Logo serão perfeitos - diz suspirando. - Chegarão a descobrir-se e ser realmente o que são, isto é, filhos de nosso Pai Celeste.

Desta forma, Shiva vai de era em era, de cultura em cultura, ensinando às almas o caminho do retorno à Morada Eterna.

Obrigada Shiva, por fazeres parte da minha vida.